16 setembro, 2006

amigo de fé, irmão camarada



Costumo pensar que sou um cara de sorte. Sempre tive de muito um pouco, e minhas alegrias são tantas que parecem tingir as tristezas de cor e profundidade, dando-lhes graça e sentido.
Tive duas, três ou quatro mães, se levar em conta quem me pariu, por quem fui criado e quem muito me auxiliou na vida. Pais, ao menos três eu tive: o que me gerou, o que me criou pelos primeiros e breves sete anos, e o que me acompanhou pelo longo tempo adiante, no início – fundamental – de meu vacilante entendimento deste mundo estranho.
De fato, esse terceiro pai foi meu irmão. Ou nem isso, pois ele é o tal “irmão de criação”, sem vínculos de sangue - o que só reforça o respeito que tenho por ele.
Vou falar da história que sei, a que minha avó Luciola me contou. Ou, ao menos, a que lembro de ter ouvido e, em parte, vivido.
Lá pelos idos de 1964, seu João, cabo da Polícia Militar, não tinha onde morar com sua mulher Cilena, duas filhas de colo, Rutilene e Roseana, e um bebê recém-nascido, Rubens, meu futuro irmão. Assim, instalaram-se mal e provisoriamente em uma garagem de uma casa desocupada, perto de onde moravam meus avós.
Meu avô os viu e ficou comovido com a precária situação daquela família. Contou à minha avó e os dois resolveram ajudar, com alimentos, roupas e o que mais pudessem.

As coisas melhoraram um pouco e, com a ajuda de meu avô, seu João alugou (e depois comprou) uma pequena casa de madeira não muito longe dali. Meus avós continuaram por perto e o pequeno Rubinho passava dias em casa, tornando-se a alegria do casal Ramôa – que só viria a ter o primeiro neto, Paulo André, dali a alguns anos.
Nasci 11 anos após tudo isso. Quando meu avô morreu, em 1982, Rubinho decidiu vir morar comigo e minha avó na casa da Vila Farah. Não lembro de tê-lo estranhado, até porque ele conviveu algum tempo conosco (ao menos nas férias) quando morávamos em Mosqueiro.
A presença daquele rapaz de 19 anos em casa foi uma dádiva para minha avó Luciola, que pôde contar com alguém para administrar as contas de casa e ajudá-la no dia-a-dia. Pra mim, Rubinho sempre foi alguém muito especial, e naqueles primeiros anos foi fácil confundi-lo com o pai que eu sempre quis por perto. Acho que ele permitiu essa ingênua confusão.
Hoje, meu irmão completa 42 anos de idade. Está em SP, onde já mora há 10 anos. Lembro de uma viagem que fizemos juntos, de carro, alguns meses antes de ele ir. Uma ocasião especial, verdadeira reviravolta para nossas vidas. Rubinho me levava para encontrar minha mãe biológica, Sonia, que eu mal conhecera e que já não via há 11 anos. Ele, por sua vez, tinha acabado de sair do banco onde trabalhou por sete anos, e se batia com uma decisão difícil: ir ou não ir embora, em busca de algo melhor para si, mas tendo que recomeçar quase do zero.
Conversamos muito naquela viagem de mais de três horas. Lembro de ter insistido para ele ir e tentar melhorar sua vida. Não era algo fácil pra mim, pois sabia o que isso representava: estaria realmente longe de meu irmão pela primeira vez, e somente poucos anos após a morte de minha avó.
Mas temia mais por ele ficar e envelhecer sem ter tido a oportunidade de descobrir coisas, ver coisas. No fundo, acho que sentia que devia isso a ele. Afinal, muitos de seus melhores anos foram dedicados a mim e a minha avó (ele nunca cobrou nada).
Eu (re)conheci minha mãe e Rubinho foi para SP. Falei com ele há pouco, por telefone. Meu irmão venceu: é gerente numa das melhores agências de um dos maiores bancos do mundo, na maior cidade da América do Sul. Tem seu próprio apartamento, seu carro, suas coisas e já conhece meio Brasil.
Vivemos muitos e muitos dias juntos, mas de 1975 para cá já vão mais de 31 anos. Hoje, sou pai e busco compartilhar com meu filho, Dante, alguns dos valores que aprendi com meu irmão: honestidade, benevolência, responsabilidade, doação.
Dante vive com um pai ao seu lado, mas não tem irmãos, nem mesmo de criação - ao menos, não ainda. Quando ele nasceu, não tive dúvida alguma: escolhi Rubinho para ser seu padrinho e estar por perto, de um jeito ou de outro e sempre que possível, nos longos anos de sua vida.