17 junho, 2006

mudaram as estações e nada mudou


Cássia Eller foi a maior intérprete de sua geração. Não é uma afirmação minha, mas repito com a tranqüilidade de quem andou sobre a Terra - com os ouvidos atentos - nos mesmos dias que ela.
Ainda hoje, quando ouço seu timbre maravilhosamente rasgado (atitude e emoção alguns decibéis acima do tom monótono das rádios), tenho essa certeza serena.

Lembro bem daquele mês de dezembro, dias cinzas em Belém, chuvas intermitentes. Ouvi pelo rádio, eu acho. Ou alguém teria ligado para dar a péssima notícia? Já não sei dizer. O fato é que ela se foi no auge, como só os melhores sabem fazer. Não devia, mas foi. Fazer o quê?
A conta está menor para nós, que ficamos, pois - parafraseando Elton John em Empty Garden, feita para John Lennon - um talento como o de Cássia ninguém consegue substituir.
Abaixo, Dezembro, canção que escrevi no dia em que soube da morte dela.

Lembro que vi você por aí
A idade mais tardia que a memória
Voltavas de uma festa de arromba
Vinho branco misturado aos teus passos
Rodopiantes, tão delirantes...
Vestido solto ao vento no dia que amanhecia.

Dezembro, eu sei
É sempre tão estranho
Festas e sorrisos tradicionais
Costumavas me esperar
Pois nada era mais importante.

E agora há tanta cor desperdiçada
Enquanto escorre o tempo
Mas por mais que o Sol se esconda
Nessa longa estrada
Sigo em frente, assim
A mente segue contra o tempo a te encontrar

Pois nada era mais importante.

Dezembro, eu sei...

A. Ramôa
Dezembro, 2001. Belém-PA.

01 junho, 2006

açaí, aveia e poltergeits...

Esta é pra quem gosta de histórias esquisitas...

Num desses inícios de julho, idos anos 90, eu e Alfredo viajamos antes de todos para o nº 218 da rua Coronel José do Ó, em Moscow. A ilha estava deserta, uns e outros gatos pingados em praias e praças, mas, mesmo assim, nos divertíamos muito. Como a grana era pouca, a ordem do dia era comprar algo barato para comer, rápido, fácil de fazer e, principalmente, que rendesse o máximo possível (estimávamos que a “vuca” da família só iria chegar dali a três dias).
A iguaria mágica escolhida foi o açaí, que, misturado com aveia Quaker, se multiplicou (ou seria mais correto dizer "tufou"?). Com o estômago forrado do delicioso caldo escuro, passávamos o dia na praia, circulando atrás de algo que não tínhamos a menor idéia do que seria. Mas também não importava muito, não...
Numa das noites, resolvemos ir pra Vila. Nos aprumamos devidamente para o que desse e viesse, e seguimos em busca das pequenas de plantão. Voltamos lá pelas duas da manhã sem sequer um vira-lata por companhia.
Mas para chegar à saudosa Vivenda Luciola, vindo pela 2ª rua, era necessário passar pela travessa conhecida como “Rua dos Jambeiros”, uma via um tanto soturna à noite, por causa dos altos jambeiros plantados no canteiro central. Pois bem, estávamos voltando, lamentando sobre nossas desventuras românticas e enaltecendo nossos feitos aventureiros (principalmente o fato de estarmos sobrevivendo de açaí e aveia), quando algo aconteceu. Ali, exatamente no meio da Rua do Jambeiro, o Alfredo virou pra mim, agarrou meu braço com uma mão e, do nada, começou a tremer, enquanto me olhava os olhos fixamente. O cara ficou pálido em milésimos de segundos e eu, sem ter a mínima idéia do que se passava, comecei a gritar com ele no meio da madrugada: _ “Ei, Alfredo, que porra é essa? Me larga, cara! Quê isso? Tá ficando doido?! Larga meu braço, meu!”. Não deve ter levado mais que 10 ou 15 segundos, mas foi o suficiente.
Quando o Alfredo finalmente voltou a si, eu já tinha dado uns três tapas no braço dele, tentando me afastar. Um pouco desnorteado, ele perguntou o seguinte: _ “Tu viste?”. Ao que se seguiu o diálogo:
Alexandre: Vi o quê, porra?
Alfredo: Aquela galera...
Alexandre: Que galera, meu?! Não tem ninguém aqui! Porra, não faz mais isso, não!
Alfredo: Ih, o cara...
Alexandre: Ih, o cara, é... Faltou bem pouco pra te dar uma remada.
Alfredo: Égua, era um monte de gente falando, passando em volta da gente, olhando pra gente... Bora logo embora daqui.
Bem, resumindo a versão dele, o que rolou foi um acesso mediúnico. Mas eu tenho lá minhas dúvidas, até porque o Alfredo nunca bateu muito bem da bola, e também adorava inventar uma história maluca como essa pra contar pros outros depois.
Eu não vi nem ouvi nada. No entanto, ainda hoje, não esqueço da expressão dele naquela noite. Aqui entre nós, na hora, não pareceu fingimento. Ou então o cara tá se perdendo, pois devia ser ator.
De qualquer maneira, prefiro lembrar daqueles dias de outra maneira bem mais agradável: sem sombra de dúvidas, foi a época da minha vida em que mais bebi açaí.
Com aveia, graças a Deus, nunca mais.