Para ser justo, se não fosse pela insistência de Carlos, sequer este texto teria sido escrito.
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O primeiro livro que escolhi ler do início ao fim , sem haver necessidade ou obrigatoriedade , foi Blecaute , de Marcelo Rubens Paiva, uma ficção urbana com ares de surrealismo que , definitivamente , me debutou nos prazeres e angústias da liturgia do leitor . Pode não se tratar de uma obra prima literária , mas conseguiu o que parecia impossível – fazer um garoto de 13 anos , por algumas horas do dia , largar os amigos inseparáveis , trocar os jogos e brincadeiras até então insubstituíveis , pela solitária companhia de um livro . Blecaute segue incólume em minha galeria de livros preferidos. Guardo-o como um troféu , pois seu valor é inestimável .
Livros não precisam ser obras de referência para que possam tocar algo mais de nós mesmos, que sequer imaginávamos existir. A sensibilidade humana é ainda mais diversa em emoções que a mais rica biblioteca concebida. O que desperta curiosidade, afeto, raiva ou ternura não pode ser definido pelo gosto da maioria, ou por alguns poucos entendidos. Cada página escrita possui sua própria fórmula mágica, seu antídoto para o sono em que adormece a fantasia, a gota de devaneio que nos fará ir um pouco além do que achamos compreender.
Mas para penetrar no universo fugaz ao qual o escritor convida, uma coisa é indiscutível: o leitor necessita de solidão. Não pelo ato da leitura em si, que pode ser compartilhado, mas pela indispensável fruição do texto, que requer um ritmo próprio para o absorver da trama e tempo para a formulação da imagem a ser desvendada. A solidão se faz necessária para o fremente extravasar da emoção, que nos conduz à simplicidade para crer.
E a magia de uma história está na capacidade em nos convencer de que a fantasia ali tratada é merecedora de nossa credulidade. Tomo como exemplo Chove nos Campos de Cachoeira , de Dalcídio Jurandir, onde a emoção parece transbordar como as águas dos campos de Cachoeira no inverno , tornando possível a solidão do delírio de Eutanázio, os catálogos da renúncia de Major Alberto, o ciúme de D. Amélia pelo amor desesperado e virginal que Lucíola dedica ao menino Alfredo, que por sua vez nos faz crer que a fantasia pode morar num caroço de tucumã. Na jorrante narrativa de Dalcídio, nada poderia ser mais plausível .
A credulidade faz com que o leitor abandone-se ao fluir da narrativa , ao mesmo tempo vassalo e senhor de sua fantasia . Nelson Rodrigues dizia saber que o sujeito mais livre do mundo é o leitor . Escreveu: “Nada interfere no pudor , na exclusividade e na inocência de sua relação com a obra de arte . Está só , espantosamente só , com o soneto , o romance ou com o drama ”. O autor concebe e escreve sua história , delineia e conduz personagens seguindo a própria inspiração , mas o leitor sempre estará livre para recriar o universo da fantasia que o seduz.
De Blecaute para cá , a solidão preencheu-me de mundos indescritíveis ...
Neste primeiro momento , deixo-os com a esplêndida companhia de Gabriel García Márquez, num belo trecho do inesquecível O Amor nos Tempos do Cólera : “(...) O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno . Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível , seu amor impávido , e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida , mais que a morte , a que não tem limites .(...)”.
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