03 dezembro, 2006

nuvens brancas



Esta é a primeira poesia que posto aqui. Devem vir outras, naturalmente.
Foi escrita quando estava dando um tempo na casa da tia Jane, fase de transição entre o primeiro Ap que tive, no condomínio Vasco da Gama, e o outro que viria a dividir com dois amigos de faculdade, Alan e Marcelo.
Com toda a certeza, essa foi a época em que mais li na minha vida. Trabalhava no Academia Amazônia como produtor de vídeos e viajava muito, às vezes por uma semana inteira, nas brenhas (belíssimas) da Amazônia. Aí voltava e ficava duas, três semanas curtindo a grana do trampo (não era tanto assim, mas, milagrosamente, o pão se multiplicava).
Uma imagem muito forte que ficou dos tempos de Vasco da Gama são as nuvens brancas, frias de janeiro, que passavam ao longe em direção ao rio. De algum modo, me sentia bem ao vê-las, nas madrugadas, pelo janelão do
kit net. Pareciam levar consigo a melancolia profunda que sentia, pois havia posto fim num relacionamento promissor sem entender muito bem por quê.
Eu estava novamente à beira da estrada, esperando a vida passar e com os dedos a pedir carona - talvez para estas breves linhas...


Próximos passos - o eterno retorno

Um ecoar se encetou
e me incomoda
mais do que os beijos que já não posso ter

Quando a cega dama sem aviso chegou
era cedo em minha cama de sonhos
Das árvores, apenas começava a escorrer
um suor de frio e medo

Acordo e estou só
num indesejável réquiem - aos primeiros anos
Essa lembrança, de onde vem, traz o murmúrio do mar

E eis que outra vez sou um estranho no novo ninho
Mas as nuvens frias agora descansam ao chão
É só o tédio ou o mundo realmente parou de girar
numa silenciosa e modorrenta tarde de verão?

Em algum lugar é chorada uma saudade
que não tem fim
pois de quem, ou de onde, não se sabe

Passageiro no trem do inevitável
é fugaz o que desliza à minha volta
À frente, meu pé direito, quimeras 
e uma sina de andar demais sobre folhas mortas

A. Ramôa
Janeiro - 1999

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